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Entrevista com Dunga
(Comunidade Canção Nova)


Como começou seu amor pela música católica?
Desde os primeiros dias da minha caminhada dentro da igreja fui atraído para Deus através da música. Ao ver todos aqueles grupos de animação, aquela moçada nova cantando, eu que já gosto muito de música, desde que era pequeno, me dediquei muito e comecei a me lançar, sendo convidado para cantar no grupo de animação. Nos primeiros dias de 1983 eu comecei a participar e me definir como um ministro de música dentro da igreja, com as primeiras experiências dentro dos grupos de oração.

Você acredita que a música é, atualmente, um grande meio de evangelização e conversão de muitos jovens?
A música é uma grande ferramenta, ela atrai muitas pessoas e, uma vez que estas pessoas estão dentro da igreja, têm contato com a pregação da palavra, que é o prato mais importante a ser servido dentro de um grupo de oração. A palavra e a eucaristia convertem para valer. A música, então, é como que um condutor destas duas coisas. Eu considero, hoje, a música como a arma mais importante para conduzir as pessoas ao encontro de Jesus, que está presente na pregação da palavra e na celebração da eucaristia. Não dá para imaginar uma evangelização, no Brasil, no mundo, sem o uso da boa música católica que chegou em um momento maravilhoso. Nós devemos ter muito cuidado com este momento que estamos atravessando pois muitos querem ganhar dinheiro conosco.

Em sua história, enquanto jovem, ocorreram alguns "obstáculos mundanos". Conte-nos um pouco sobre eles para que sua vivência possa servir de exemplo para muitos jovens que estejam passando pelos mesmos problemas.
O que eu vivi, muitos jovens, hoje, estão vivendo, que é o uso da droga e da prostituição. Na minha época era mais a prostituição, porque não existia o contágio e o perigo da AIDS. Como um jovem comum da minha época, levado pela curiosidade, experimentei também as drogas, maconha e cocaína, e durante quatro anos da minha vida, dos quatorze aos dezoito, fui usuário e freqüentador também de prostíbulos.

Foi neste tempo que minha mãe rezou muito por mim, todos os dias, quando eu chegava bêbado e drogado em casa. Um dia, ainda drogado, entrei numa igreja e ali tudo mudou pois fui tocado pela pregação da palavra de um homem, pelas canções que estavam sendo cantadas... Ali eu parei com tudo. De um dia para o outro eu não tinha mais vontade de freqüentar outros lugares que eu estava freqüentando... E aí aconteceu! É uma história semelhante a de muitos que hoje estão voltando para Deus, porém é necessário querer. O querer é nosso e o poder é de Deus. Sem o nosso querer, Deus não pode fazer nada. Sem o poder de Deus também não adianta querer nada... Uma coisa completa a outra.

O que você considera de muito importante, que aprendeu na Canção Nova, o fez refletir, e utiliza até hoje em seus shows, encontros e evangelizações?
Viver em comunidade, sabendo que não estamos sozinhos e que existem pessoas frágeis, pecadoras... Ao mesmo tempo tão belas... O fato de estar em comunidade tem maior chance de ser corrigido, orientado, errando menos... Mas erramos! Quando erramos, devemos ter a humildade de pedir perdão e aceitar a correção... A vivência em comunidade nos faz também exercer a obediência, obediência aos meus superiores... Até mesmo a carência e a vontade do irmão... Tudo isso eu levo para o palco, sabendo que quem está me ouvindo cantar ou pregar são pessoas que também vivem em comunidade, que têm problemas como eu e são iguais a mim e eu não posso exigir nada delas, a não ser que elas queiram ser amadas... São limitadas e pecadoras como eu sou... A compaixão e amor por essas pessoas me acompanham sempre.

Sua música "Restauração" teve uma ótima repercursão, sendo gravada até pelo nosso amigo, Padre Zeca (Associação Deus é Dez). E para você, qual música mais o marcou?
Concordo! A música "Restauração" é a música que mais me marcou até agora, pois ela é fruto de um momento muito importante que nós vivemos na Comunidade Canção Nova... Um momento de reciclagem, de retomada de caminhada... Ela foi fruto também de muitas visitas minhas a Centros de Recuperação para drogados e centros para aidéticos em fase terminal, presídios, cadeias... Todas as minhas visitas e os momentos vividos com estas pessoas geraram a letra desta música.

Hoje, sem dúvidas, ela se tornou uma música "ícone" da minha pessoa. Aonde eu vou, preciso cantá-la. É muito gostoso saber que as pessoas se identificam com uma música como esta. O padre Zeca gravou, o padre Marcelo também está querendo gravar no próximo CD, e eu digo que quem quiser gravar esta música, está aberto, pois ela não pertence a mim e sim a todo o povo brasileiro que quer entrar em processo de restauração. É a música que mais deu efeito na vida das pessoas e na minha própria vida.

Música Sacra Católica. Como você a define?
É linda. As pessoas que hoje estão na igreja caminhando, que já têm este dom dado por Deus, vivem, compõem e gravam... É diferente das músicas seculares, que imaginam, sentem, "criam do nada" e depois vão cantar aquelas besteiras que estamos, infelizmente, abituados a ouvir nas FMs e nos lugares públicos... A diferença da nossa música é que nós vivemos uma caminhada e uma experiência com Deus, que são traduzidas em música. Acabamos cantando as experiências que muitas pessoas estão tendo. Isso é muito importante: o que cantamos é a "vida vivida" e por isso tem dado certo.

Uma mensagem especial para os internautas do Portal da Música Católica:
A música católica mais uma vez chega a um ponto decisivo. Existe uma linha dentro desta música que, infelizmente, visa dinheiro: gravar, vender, ganhar dinheiro e gastar... A história da música católica não é esta. Existe 13 anos de Hallel, 30 anos de Renovação Carismática Católica, mostrando que nós, músicos, católicos, poderemos até vir a viver da música, mas de uma maneira simples, ou seja, não é para ganhar dinheiro e sim conseguir se sustentar, pois quando as gravadoras nos iludirem, nos conquistarem e nos tirarem do caminho por causa das grandes ofertas, sejam elas dentro ou fora da igreja, nosso Ministério de Música dentro da Igreja Católica acaba. Fica este alerta, então, aos músicos que estão vindo de nós: não visem, de maneira alguma, dinheiro...
Deus vai cuidar de vocês, vai dar um bom emprego (até mesmo ligado à música), mas não é para gravar e viver do dinheiro da gravação, pois o músico não pode viver apenas de estúdios de gravação, de ensaios e viagens, um tempo muito ocioso e prejudicial... O músico tem que viver de igreja, de reuniões de grupos, de missão, de pregação, de trabalho, também cantando... O músico católico é diferente do músico secular, que acorda tarde, só ensaia, vai para o estúdio, estuda música e canta. Este NÃO é o perfil do músico católico, que trabalha, freqüenta um grupo de oração, acorda cedo, tem família, toca e canta aquilo que vive. Por favor, músicos, tomem cuidado com as propostas das gravadoras católicas, com as propostas das gravadoras seculares. Não venda o seu ministério nem para gravadoras e nem para o homem "velho" que está dentro de você! A nossa história é feita de pobreza, para evangelizar!

Valeu, Dunga! Jesus o abençoe!

por Rafael de Angeli
junho de 2001

  
  
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